IPUBI - PERNAMBUCO - BRASIL
Dois anos tinha se passado e na nossa terra se escuta o choro de nossa vizinha Raquel porque os seus filhos partira e desse modo a alegria aos poucos deu entrada a tristeza, seus filhos um a um saio e não se sabe quando vão voltar. A cidade de que outrora tinha a capacidade de produzir, virou um deserto, porem eu e a Miosótis ficamos. Pois para onde iriamos nós? Toda terra esta seca e as pequenas cidades vão perdendo todos os dias seus filhos e filhas, ate os grandes saíram para não mais voltar, fecharam as portas das suas empresas e todas as igrejas que pregavam palavras soltas em forma de esperança, estão também vazias. Os seus pastores se dispersaram e nada mais prometem, um a um levou a lã das ovelhas e nas suas partidas repentinas, eles acabaram por se esquecerem de carregar o que eles mesmo apregoavam ser a palavra de Deus. Em casas e igrejas abandonadas, há apenas algumas Bíblias carregadas de pó, que estão a ser devoradas pelas traça por cada ano que passa, porque todos os que se designavam de profetas, pastores e sacerdotes viram homens comuns e muitos deles trocaram de casaca ao abraçarem o mundo e todas suas paixões, afinal os fieis não podem mais pagar o dizimo, todo mundo se encontra desempregado. Os sobreviventes são os que ainda conseguem viver da terra com grande esforço, esses sempre viveram da forma mais modesta e uma crise para eles é algo tão comum aqui no sertão do Araripe.
Raquel vive agora só, doente e faz dois meses que se encontra viuvá , seu esposo perdera as forças e adoecera por dias e meses afim, só a minha querida e mui amada Miosótis é que tentou creio mesmo que em vão socorrer por varias vezes esta família. Mas os credores e agiotas a sua passagem levaram seus pertences e o único cântaro que carregava a água, esta quebrado junto ao poço que deram por nome Poço das Lagrimas. A água como viva se retirava dali dia e noite, mas veio um dia que o poço secou e a meio da angustia e desespero o ultimo dos seus filhos, quebrou cântaro e no dia que o cântaro quebrou o esposo de Raquel adormeceu para sempre. Estava tão magro e tão triste que o seu ultimo pedido fora o de ser enterrado debaixo de um pé de uma arvore seca. Seu corpo envolta de lençol branco dechera então a terra que ele tanto amo, ali esta ele e ali mora entre um pé de arvore seca e poço das Lagrimas que nunca mais água brotou. Raquel com vestes de luto, já não luta mais, esta abatida e perdera todas as forças, só a Miosótis é que ainda passa por lá todos os dias e leva um caldo um pouco aguado e vai recebendo em troca um sorriso semi fechado e por vezes nu. Raquel e Miosótis se detêm entre o silencio e a dor, pois nada falam, ambas estão suspensas e inclinam seus rosto na direção do chão de terra batida, ninguém mais consegue se prenunciar sobre a vida e o futuro, pois ate a própria terra chora cada vez que um a um de seus filhos parte para não mais voltar. Dias difíceis ainda se avizinham, ate as chuvas viram pó e o sol virou o rosto as nações, pois é como se os dias tivessem ficados suspensos e ninguém mais conseguisse dizer algo agradável. Tudo esta seco, tudo esta morrendo e a terra que prometia tantas coisas, ela mesma esta prometendo atualmente coisa nenhuma, enquanto isso a grande Meretriz vive suspensa entre a gloria prematura em sua cadeira declive a do poder. De nada mais vale o ouro ou prata, o dinheiro perdera aqui a sua cotação, resta-nos a troca direta porque é coisa comum entre os que persistiram em ficar. Temos ainda a sorte pois todas as semanas o Senhor Eliseu nos trás água carregada em uma velha carroça puxada por um velho burro com tons cor de manteiga, a alguns anos atrás em sua humildade vinha todos dias ate ao centro da cidade em seu carro pipa e abastecia todas a população, tanto no centro como nos arredores. Ele um homem de idade avançada e desprovido de medo, um homem de olhos profundos quanto o do sertão e que tem sobre si o cheiro da terra seca em suas vestes, afinal é graças a ele que ainda vamos sabendo o que se esta a passar nos arredores da nossa região, pois o senhor Eliseu é para nós jornaleiro é o que leva e trás as noticias. Na semana retrasada, trouce nos mais uma noticia triste, que o senhor Ilias falecera de um ataque cardíaco, pois era já de idade avançada e pouco ou nada tinha para oferecer, mas a noticia mais triste que alguém poderá escutar é saber que sua filha mais velha se encontrava hospitalizada de uma depressão. Moça analfabeta, vivia de casa em casa catando o lixo dos outros, mas como era previsto, uma a uma das portas se foram fechado e ela sem eira nem beira perdera o norte e o chão. Com a partida de seu único apoio que era seu pai, passou a vagar por a cidade e desta vez ia fusando cada saco de lixo na esperança de poder encontrar algo. Assim estava o mundo e seus filhos, entregues a fome e a dor, pois o mundo perderam sua virilidade e a seiva que existia em cada uma das suas arvores, foi se perdendo de ano para ano. As ideias vindas de um mundo caótico também aqui chegaram, o povo humilde viu suas terras serem lhes tiradas uma a uma, viu que sobre as serras não havia mais cor, pois as serras perderam toda sua força, apenas pó e mais pó e nada mais do que pó é tudo que se avizinha e com isso os filhos da terra mergulham em depressões constantes e saem dela sem rumo e sem norte.
Escondido no fim do mundo vou escrevo os dias que vão passando por mim, porque a minha unica esperança é o meu grande amor, só ela é que me alegra e me isentiva a escrita. É ela que a meio do silencio me ensina a viver como hoje vivo, afinal toda a minha vida foi sofrimento e eu pouco ou nada tinha compreendido o que queria dizer isto, mas Miosótis me abriu me os olhos e fez me ver, que tudo que acontece debaixo do sol é a parte de um complemento direto das nossas próprias ações. Pois tudo acontece de um modo simples e claro, tudo em si já esta escrito e só nos resta esperar por melhores dias, mesmo que tardem a vir, mesmo que a fé em nós seja reduzida a esse grão o de mostarda, quem sabe se esse mesmo grão um dia ainda vai germinar.
O homem do velho Mundo de rendeu ao novo e a flor frágil do sertão se rendeu a esse mesmo homem, pois foi aqui que descobri o verdadeiro significado da vida, aqui compreendi que os grandes não se comprometem com nada, afinal a terra que fica no lugar por nome de fim do mundo é a terra que esconde apenas os que já mais se prostraram a grande e terrível senhora dona do mundo e de todas as desilusões. Poderá alguém iludir um homem sábio? Se confunde aquele ao aquela que acha que venceu, pois o vento não obedece aos homens, assim como sabedoria não se detêm no caminho da loucura. Os humildes sempre venceram e é a eles que pertence a terra inteira e não terra das das falsas promessas. Quando a noite se avizinha as velas e candeias de querosene se acendem por toda parte, a energia ficara tão cara que são poucos que se podem dar ao luxo de a ter em suas casas, foi por esse motivo que grande maioria das fabricas tiveram que fechar as suas portas, pois lhes era impossível suportar tais gastos, hoje ninguém mais faz placas, água é tão cara e tão escassa que o minimo dos mínimos dos desperdícios se torna um problema entre as nações. Tudo esta caro, tudo esta escasso, tudo se reduziu para mais de metade e o que menos se esperava surgiu como dia para a noite. Resta tão pouco que aqueles que se atreve a sobrevivente, acabam por partir levando com eles a esperança de alcançar melhores dias. Promessas e mais promessas, são as noticias que se escutam no velho radio a pilhas, uma vez por semana nos reunimos e falamos sobre a sobrevivência de cada um de nós, uma comunidade de homens e mulheres boas que persistem em lutar e ficar. Nessas reuniões cada um de nós leva o pouco que tem e trocamos uns com os outros pertences e alimentos. Esta semana que passou um dos presentes consegui como por milagre uma boa colheita de feijão, trocamos uns com os outros essa grande dadiva oferecida pela terra. A alegria era visivel no rosto estampado de cada um de nós, afinal um dos alimentos prediletos ia poder entrar nas nossas casas. Quarenta e poucos kg de feijão molato fora dividido por todos, ninguém ficou de fora, pois o amor persistia ainda em nossos corações, todos porque todos os que ficaram são homens valentes, homens que a terra abraça e que o mundo já mais poderão entender, mas os que partiram já mais poderão desfrutar desta tão grande dadiva que a terra as escondidas nos vai oferecendo.
Amanha é dia de aula, uma só vez por semana, crianças e jovens ate mesmo adultos, vem de longe e juntos debaixo de pé de manga apreendem o que quer dizer esperança, pois me comprometi a ensinar todos eles, tendo apenas a velha bíblia que fora oferecida a alguns anos atrás em São Paulo, quando ainda vivia no pequeno albergue por nome Hotel Social. Recordo que trabalhava por essa altura na Rua vinte cinco de Março como segurança e um dia uma senhora evangélica veio e me ofereceu esta mesma bíblia bilíngue. Uma relíquia que carrego todos os dias comigo para onde vou, afinal a terra esta desprovida de pregadores e mais do que pregar é viver entre os homens da terra, pois que palavras podem ser ditas quando a terra chora e os homens desesperam por melhores dias que tardam em vir. Palavras que são prenunciadas a entrada do vale da sombra da morte, palavras que tem como ancora a verdadeira fé. Não a fé da multiplicação, mas sim a fé da preexistência dos verdadeiros cristãos, aquela que é tomada em silencio e vive como escondida no coração dos que ainda acreditam que vão chegar dias melhores. Debaixo do pé de manga, começo por ler uma passagem da bíblia e hoje senti de ler o capitulo 1 do Profeta Jeremias. O silencio e a curiosidade é bem maior do que a fome que carregamos em nossos ventres é como alimento que ninguém pode retirar de nós, alimento esse que dá para longa jornada. O Profeta Jeremias melhor do que ninguém soube o que era suportar os anos terríveis e cativeiro, fome e perseguições, com ele apreendemos a ser mais pacientes e apreendemos que tudo que acontece debaixo do sol é permissão de Deus. Setenta anos foi quanto o povo teve que sofrer e nós estávamos apenas nos dois primeiros anos de clamidada que se avizinham em toda terra. Segundo as provisões ainda nos resta pela frente mais cinco longos anos, por isso e muito mais as noticias se tornam desanimadoras. Quem subsistira ao grande e terrível dia que se avizinha? Seca se a erva e caem as flores, mas a palavra de Deus subsiste para sempre. Resta nos estas palavras a meio da dor e tão sofrimento, resta nos a fé pelas coisas que ainda não se avizinham, mas temos ainda em nós a esperança que Deus nos ira se correr. É tudo que temos e tudo que temos dividimos assim uns com os outros, aqui como esquecidos do resto da humanidade tentamos a todo custo sobreviver por cada dia que passa, ninguém mais quer ir embora, preferem morrer entre os montes do que entrar nas cidades para lá irem morrer.
Ontem Raul chegou a Ipubi, ele assim como muitos outros tinha perdido a fé e sairão por todos os caminhos, Raul é também professor, porem mais agnóstico do que propriamente crente, por isso a fé que ele tinha, era fé dos homens, fé essa que se desvirtua com passar do tempo. Recordo me que lhe tinha pedido carecidamente para não ir, pois eu melhor do que ninguém conheci o mundo e suas mentiras, conhecia como palma das minhas mãos esses dissabores e as derrotas que fazem nos sentir bobos e nos obrigam a tantas vaidades. O mundo disse lhe eu, não tem mais nada para nos oferecer, resta nos este lugar que Deus nos colocou, resta nos a união e a partilha do pouco que a terra nos oferece, porque juntos teremos forças para remover todas as pedras do caminho. Mas o meu grande amigo partiu, mas voltou, voltou porque apreendeu o que ele mesmo já em si sabia, que as grandes cidades estava devastadas pela fome e pelo medo. Envolta de mil promessas vás, o povo correu um após outro na esperança de encontrarem algo melhor. Raul veio na minha casa que fica atualmente entre uma estrada de terra batida e seca e um vale profundo por nome de Sitio da Gameleira, na verdade esta pequena casa é uma herança dos país de Miosótis, é aqui que nos escondemos é aqui que apreendemos amar a terra e o sol amável sertão. Conversamos pela noite a dentro envolta de uma fogueira, ele me contou coisas que eu já em si imaginava que estava acontecer, coisas essas tão terríveis que só pensamos que acontecem em nossos pesadelos. Raul dizia com grande pesar que era mais que um pesadelo, era algo tão real que viver como o mundo realmente estava a viver seria impossível se acreditar em algo melhor. A fé dos homens tinha sido derrotada e a fé do meu amigo agora era fé dos verdadeiros adoradores a Deus. Ele tinha ido para São Paulo em uma pequena vá cheia de gente assustada, o povo nordestino caminhava sem saber na direção da morte, caminhava a passos largos na direção do abismos sem volta. Raul despertara a tempo e com as poucas forças que ainda lhe restavam voltou e ainda disse que já mais olhara para trás, as coisas inimagináveis tinha lhe trazido tantos dissabores, que a sua boca ficara como amarga e o seu coração amedrontado procurou em si mesmo algo que lhe ensinasse o que quer dizer ainda esperança. Ele disse me ainda, que tinha ido viver num pequeno quarto com mais de cinco almas, quarto esse que ficava no Parque D. Pedro, precisamente no bairro da Sé e que durante dias percorrera toda cidade e arredores na esperança de encontrar trabalho, mas as filas eram enormes e a violência no meio delas era bem maior. O povo lutava desesperadamente afim de conseguir um trabalho, fosse a que custo fosse, só os mais fortes prevaleciam, roubando e matando sem dó nem piedade e enquanto isso o mundo caminhava assim. Pelas ruas e avenidas escuras era visível se avistar toneladas de lixo amontadas por meses e meses sem que alguém viesse recolher. Também se viam crianças abandonadas que dormiam como moribundas pelas calçadas e jovens que antes era filhas de boas famílias, trocava os corpos por naco de pão. Os senhores da terra em seus carros luxosos carregava essas moças e nunca mais era vistas, a morte estava como a espreita em todos os lugares. Um dia disse ele, que tinha chegado ao quarto e seus poucos pertences tinha sido carregados por alguém e foi ai que ele entendeu, que tinha chegado a hora de partir. Choraram todo caminho e dormira sempre com medo, pois havia homens com tanta sede por sangue, me disse ainda que de noite saia pela estrada interminável e que durante o dia se escondia temendo o pior. Atravessara três estados ate chegar ao estado de Pernambuco, em uma longa caminhada por dois meses que pareciam não ter fim, ele me disse que no fim das contas, que a fé que eu tanto tinha apregoado para ele fora maior do que todos os seus medos. Pois pelas estradas que ele precorrera, contemplara também tanta morte, porque nem todos conseguira voltar a casa e desse modo um a um morria pelo caminho. Preguntei lhe de que se alimentava e ele prontamente me disse de tudo que lhe aparecia na frente e já dava para se imaginar o que seria. Ouve um silencio entre nós e foi possível se ver em seu rosto, grosas lagrimas caiam em direção ao chão.
Quando acordei pela manha o Raul tinha partido, mas desta vez para sua casa. Enquanto isso o meu gato redopiava envolta das minhas pernas pedinchando sem parar, afim de que lhe desse algo para comer, mas a nossa geladeira esta vazia e nos armários a solidão habita e nem reclama, mas temos a sorte, pois há ainda pão sobre a nossa mesa mesmo que seco e há café que suspira e transpira um odor convidativo, Miosótis passa por detrás de mim e toca em meus cabelos, enquanto eu escrevo, ao seu toque nasce em meus lábios um sorriso tardio, mesmo que tenha suspendido as palavras é ai que tento esquecer por um tempo a vida a qual agora eu pertenço. Mas foi agraciado pelo destino, pois a Miosótis com tão poucos palavras diz tantas coisas, enquanto eu procuro tantas palavras e parece que vou dizendo tão pouco ao menos do que ela, porque há tanta esperança em seu olhar, porque há tanta vida e alegria em seus lábios. A vida para ela é apenas um dia após outro, é como renascer todos dias, nada nela pode ser contradito, ela melhor do que ninguém conhece o dia futuro e se ri do mesmo. Ela sabe que tudo é passageiro, ela sabe que a grande prostituta não poderá ficar para sempre na cadeira do poder, pois a cadeira do poder é inclinada e todos os que pensam que podem se manter nela para sempre, acaba um dia por cair. Duas grandes senhoras que não se conhecem, uma é a esperança e a outra é uma louca, a esperança tem a fé viva e força desde o dia que nasceu, ela tem o dom de acreditar que tudo é passageiro e nada pode ser eterno, porem a louca vive entre a soberba e vaidade do seu próprio corpo, ela desconhece a fé e a razão. Para ela o seu poder é eterno e nada poderá a fazer cair, tudo nela é belo e tem a cor de escarlate, pois os reis e todos os suberanos se postam de boca aberta a sua passagem e os pequenos e os grandes compram, vendem e pede emprestado, desconhecendo cada um deles o seu fim. A grande prostituta a senhora que domina o mundo atual, tem nela o poder que lhe foi concedido pelas nações, todos os grandes lhe obedecem e se postam a sua passagem e os que não se postam vão sofrendo grandes prosseguições, por isso é que há alguns que ainda resistem e vivem como escondidos entre as terras secas e um cavernas úmidas em meio da esperança e da fé que esta como suspendida por um tempo determinado.
Os dias vindouros prometem horas mortas e de pensamentos suspensos ao vento. Enquanto vou escrevo as minhas memorias, sinto por detrás de mim, a cortina velha, porque o vento que é seco e quente, redopia na minha coisinha procurando o que não tenho. Agora o mestre que eu era, tem os ombros cansados e a barba embranquecida pela dor que os meus olhos contemplam e vou escrevendo mesmo que tremulo e cabisbaixo palavras solta. Sete anos de fome entraram na terra, mas tem este porem José não esta mais entre nós e os grandes senhores da terra ignoram aqueles que vem e prometem melhores dias. Escondido a meio do sertão vou vivendo entre a dor que mal suporto e fome que se arrasta entre as portas, Miosótis esta calma como sempre pois a vida lhe ensinou a aceitar a vida tal como ela se apresenta. O homem que um dia compreendeu tantas coisas, o homem que viajou por tantas paragens, hoje vive entre os pequenos da terra e mora com a simplicidade . Miosótis é agora o meu mestre, pois faz alguns meses que ela veio viver comigo. Juntos apreendemos a lavrar a terra e a colher o que o solo nos oferece, juntos colhemos os poucos grãos e alimentamos as galinhas na esperança de recebermos delas alguns ovos. Tres Galinhas magras e um galo rouco que compreende melhor que nós o que é despertar aqui no sertão.
Crise mundial
Dias antes de sentirmos a crise que se avizinhava as portas do Nordeste de Pernambuco uma das minhas melhores amigas tinha vindo a minha casa e me contaram um sonho, sonho esse que ela chamou de o Dia do Juízo final. Contara me que viu uma grande arvore carregada de folhas e frutos de boa qualidade e no meio dela estava escrito a letras de fogo uma só palavra, a qual ate a mim por essa altura me perturbou: Absinto ou melhor dizendo Amargura. Continuando a me relatar seu sonho disse ainda que essa mesma arvore como do nada ficou negra e gafanhotos a devoravam ate que ela por fim ficara completamente seca. Por essa altura frequentava uma igreja evangélica e tinha escutado também dias antes essa mesma palavra num dos cultos, o ancião que atendeu o culto e que Deus já recolheu para o seu reino de gloria, pediu para que que cada um de nós ajudasse na leitura em: 8 de Apocalipse. Quando a minha amiga me falou o seu sonho eu compreendi imediatamente que algo estaria para acontecer e que seria algo pouco agradável. Como da noite para dia todo mundo estava como perturbado, pois corriam noticias tristes pela televisão e pelas rádios locais, noticias essas que Brasil estava prestes a enfrentar uma das maiores crises financeiras ate então vista, com isso o presidente da época caiu e ouve nas novas eleições a estrema direita entrara para governar um país envolta de uma nuvem negra e espeça. Por essa altura estávamos ainda em parto de dor e tudo que acontecesse dali para frente seria como algo que ia precipitasse na direção de um abismo caótico e sem volta. A vitoria da oposição deixara por essa época um gosto semi amargo em nossas bocas, pois o desemprego subira em flecha, as pequenas e medias empresas faliram, os mercados deixaram lentamente de receber seus produtos e alimentos e a feira que se fazia todas as segundas-feiras, deixara de ter vendedores assim como clientes. Por essa altura todo mundo começou a ficar endividados, fazendo assim brotar uma grande onda de desconfiança uns entre os outros, a cidade que antes era unida estava agora suspensa entre a correpção geral e o medo. A terra deste modo fica como ao abandono, os que muito tem se aproveitaram e compraram as terras por tão pouco e é assim que acabaram por vir a tirarem grandes lucros. Enquanto isso, as heranças passavam para as mãos daqueles que nunca vão semear coisa alguma, o sertão aos poucos foi secando e ficou como ao abandono. Porque as mãos do que puxava o arado são agora as mãos dos pedintes em cidades vizinhas a onde a violência cresce de dia para dia.
O mundo inteiro ficou como virado ponta cabeça e seus filhos corria de um lugar para outro e só encontravam calamidades, fome e guerras, porque as guerras que existem agora, não são mais guerras com armas de fogo, mas sim guerras de poder. As nações mais poderosas aprisionarão as mais pobres e levaram com elas todos os despojos e almas que ficara para sempre como cativas. Ninguém mais esta seguro, ninguém mais confia em ninguém, tudo que era moralidade se perdera, pois os homens perderam o respeito e as suas verdadeiras identidades, com isto vieram as crises e entrara sem pedir alguma vez autorização. Banqueiros corruptos se tornaram suberanos quando a anos atras eles se fizeram passar se por salvadores, salvadores de uma economia forte e poderosa, os meus salvadores que prometiam mares e fundos levaram cada uma dessas nações a banca rota. Porque nesses tempo de vacas gordas o mundo inteiro estava como adormecido e foi por esse tempo que os tiranos despertaram de um longo sono que nos levariam a este tão grande sofrimento e depressão. O Brasil que tinha tudo para ser um grande país cairá também nas garras e artimanhas dos grandes senhores, com discursos perlongados e promessas vãs, cada um dos estados do Brasil se rendeu e o que era para ser fartura se transformou em miséria e desse modo, esta é agora a condição humana que todos enfrentávamos dia após dia.
Só e suspenso entre a dor do que observo, a minha alma desfalece e os dias correm tão lentos como são as madrugadas dos trópicos a norte do meu país, as noticias que vem de longe são desanimadoras, pois em toda terra há gritos abafados pelas mordomias de que detêm o poder. A nova ordem mundial segue em frente e devora a terra e seus filhos, o mundo deixara de ser mundo, pois por cada ano que passa as flores do campo vão secando e espinhos e cardos nascem e vão tomando os caminhos. Sem destino e sem rumo algum, os povos avança como desesperados e cabisbaixos, suspendendo os braços das que amamentam nestes dias. Dias terríveis ainda se avizinham, pois a grande prostituta da antiga Babilônia tomou logar na cede do poder faz alguns anos, ela hoje é senhora e suberana, foi ela derrubou a rainha de Sabá da sua gloria que era a sede de apreender, pois ela perdera a sua gloria e deu lugar há grande e terrivel prostituta e hoje todos os grandes da terra se deleitam e bebe leite azedo em seus peitos volumosos. Deste modo a terra sofre e os cegos um a um asentam se em cadeiras polidas na Sede das Nações Unidas, ali os descursos são comparados a peças teatrais, ninguem diz coisa com coisa porque na verdade esta todo mundo como entorpecido.
Raul veio mais uma vez me visitar e como vendera tudo que tinha me pediu carecidamente se podia viver na velha casa que fica nos fundos do meu quintal, prontamente disse lhe que sim e que ate seria bom, assim poderíamos vigiar essa área em si abandonada. Dei lhe algumas roupas mesmo que velhas e juntos começamos uma empreitada de restauração na dita casa. Era visível em seus olhos um certo animo e alegria, era como se ele tivesse reconquistado a sua dignidade e sua identidade fora aos poucos recuperada. Com poucos meios conseguimos colocar tudo em ordem, como ele tinha poucas ou nenhumas condições pedi que ficasse o tempo que quisesse ali e cuida se da terra comigo, mesmo sendo uma só tarefa. Estava a plantar macaxeira para consumo próprio e para troca direta, tinha este porem que os que passava por ali tentava a todo custo roubar o pouco que já tínhamos. Eram tempos difíceis e no sertão nordestino assim como em todo Brasil palavra de ordem era: salve quem poder. Raul era destemido de medos, quanto a mim, eu era mais pacifista o que não ajudava em nada, pois em tempos difíceis aqueles que usam da força tendem em tirar muito mais vantagem. Sentia me como profeta Gedeão malhando as escondidas e pela noite num pequeno lagar, malha alguns em algumas espigas de milho ainda verde, afim de alimentar as galinhas e poder tirar algum lucro com elas. Ate as galinhas tinha que ficar escondidas durante a noite num dos quartos da nossa casa, Miosótis achava graça a isto, pois dizia constantemente que elas era como nossas filhas que vivia em um quarto improvisado para servir de galinheiro, pois era tudo que podíamos fazer para salvaguardar o pouco que nos restava. Raul não se admirou deste nosso feito e jurava defender com unhas e dentes este glorioso patrimônio, assim eu poderia ficar um pouco mais descansando e trabalhar um pouco mais em meu livro de memorias. Agora também tinha com quem conversar, Miosótis ate achava bom pois me achava desde da vinda de Raul que estava agora um pouco mais animado, dizia constantemente que ele tinha sido como um anjo enviado por Deus para me ajudar e defender o pouco que tínhamos e que ainda conseguíamos repartir esse pouco uns com os outros.
No dia seguinte pela manha fomos tentar encontrar um camião que trazia sal e que ele tinha virado na estrada que dá para Serra Branca quando o tentaram a saltar. O camionista virara o camião ao tentar salvar a vida, e ainda tivera a sorte de conseguir escapar com vida pois consegui fugir pelo mato a dentro. Os Ladrões ficaram um pouco decepcionados afinal uma carga de sal não lhes servia para nada, eles queria apenas alimentos ou alguns bens matrias para venderem. O camião ali ficou e o sal estava a se perder com forme os dias ia passando, metemos então os pés ao caminho e meio que armados de facas e enxadas e uma pequena carroça saímos por a estrada a fora, mas não foi preciso caminhar muito tempo, afinal o camião estava apenas a um km da minha casa. Apressamo nos e pegamos tudo que podíamos sem olhar para trás, ao todo conseguimos carregar ainda quatro sacos de sal em nossa pequena carroça e alegres voltamos para casa, pois o sal tinha mais valor o que qualquer dinheiro. Sem energia para a geladeira o sal era algo de grande valia nestes tempos, podíamos salgar algumas carnes, entre elas a velha jumenta que tivemos que abater por falta de sustento e antes que ela adoece-se, desse modo teríamos também carne para muitos dias ou meses. A vida por estas paragens era mesmo assim, entre dias de mesa farta e dias de coisa nenhuma, íamos levando a vida e caminhado enfrente como só o povo do nordeste de Pernambuco sempre a levou.
Como poderei descrever a triste situação da nossa amada cidade, em primeiro de tudo é bom salientar que a prefeitura esta de portas fechadas pois não tem mais perfeito nem veriadores, o governo de Pernambuco tinha já algum tempo que não mandava verbas para cidade, deste modo aqueles que tinham tanta sede de poder, acabaram por desanimar e partiram antes que desse para torto. Desse modo se reuniu um concelho que demos por nome: Concelho de Homens Bons e por unanimidade foi designado mesmo como voluntario um jovem promissor, o Valerios que sempre se esforçara para ajudar o seu semelhante, entre nós era visível que não havia ninguém melhor que ele para tal cargo. Quanto a igreja paroquial que fica no centro da cidade faz um ano que esta de portas fechadas, o padre tinha saído em uma missão e nunca mais voltou, há quem julgue que ele foi assassinado em alguma estrada e por isso não tenha voltado mais, o que criou uma profunda tristeza entre os seus fieis. Muitos comentaram que ele fora talvez confundido com um simples cidadão e por isso sofrera como todos por este tempo sofrem ataques constantes. Face a segurança ela é de péssimas condições, pois os poucos policias que existiam um a um fora destacado como para a frente das grandes cidades a fim de as protegerem, apenas o policial Tavares ficou, pois já tinha idade um pouco avançada, mas é ele quem tenta defender a cidade junto com os homens bons que ainda restam. É ele que destaca uma vez por semana esses mesmos homens e juntos patrulham a cidade e seus arredores, entroca receberem da população algo para comer e beber.
O hospital esta como ao abandono e a unica medica que ficou foi uma medica Cubana acabou por casar aqui, temendo voltar para cuba, pois antiga Cuba de Fidel Castre caiu e mais nada resta da sua antiga gloria e regime, o ocidente triunfou de uma vez por todas e a estrema direita avançou em todas as direções e nada mais é do que uma ditadura a escala mundial disfarçada de democracia que tomou uma a uma as nações enquanto o povo estava como adormecido. Um bando de gananciosos desbrava a terra sem dó nem piedade e com sede de vingança levam as nações a se prostrarem perante suas ideias e ideais. quem se empunhem sofre grandes pressões ate a poderosa China teve que aceitar tal feito porque a muitos ali também lhes interessava, afinal sempre há alguém que tem esta desenfreada ambição, por poder.
Quanto a educação não sera difícil se adivinhar, afinal de contas foi a primeira a sofrer cortes para reduzir os custos e engordar aqueles que sempre anseiam por mais e mais poder. Professores, auxiliares e seguranças foram despedidos em todo país, algumas das escolas principalmente as das pequenas localidades tiveram que fechar as portas, depois tinha chegado a vez dos grandes centros urbanos também fecharem. Ouve então greves e protestos em todo país, o governo respondeu com ondas de violência levando milhares de professores e jovens universitários para serem presos. Mais de três terços foram presos em todo país e nunca mais foram vistos por seus familiares. Deste modo estava estalado um regime autoritário, que era dominado por uma elite forte de uma politica de estrema direita. O país mergulhou no caos e milhões de cidadãos fizeram filas migratórias na esperança de encontrar um modo de sobrevivência, afinal com as escolas e universidades fechadas a população estava revoltada, mas o governo não conseguia mais contornar essa situação e desse modo gradualmente foi piorando de ano para ano. Nas noticias era visível observar se, grande tristeza, as trágicas noticias que chegavam vindas de todo mundo, os cinco continentes estava a desabar, pois as suas politicas tinha se tornado algo semelhante a uma tragedia grega, sem mediadores, sem respostas o mundo inteiro mergulharam pela primeira vez no caos. Semelhante a queda da Torre de Babel, o mundo estava perante o maior êxodo desde que o mundo é mundo, o pior de tudo é que ninguém estava a conseguir travar tal acontecimento e muito menos se entenderem. Milhares de esforços foram feitos, mas tudo em vão, o ser humano tinha chegado ao limite da sua própria loucura, a perda de identidade, levara a humanidade a um beco sem saída e o pior de tudo não havia previsão de melhorias. Por todo mundo fora criado uma só identidade para controlar as entradas e saídas migratórias, desse modo ninguém podia comprar ou vender sem que primeiro tivesse que apresentar a sua carteira de identidade, ricos e pobres estava pela primeira vez no mesmo barco, mas ninguém se entendia. Os Imposto elevados, a água tinha se tornado escassa, a luz seguira pelo mesmo caminho e compostivel era tão caro que só os mais ricos podiam ainda comprar. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, água ficara tão cara e rará que ouve protestos, o que levou o país em peso a uma revolta nacional e que fora reprimida com uma ordem de recolher obrigatória, mas revolta foi tão grande que acabou por afetar toda economia da America latina. Para se tentar resolver esta situação as Nações Unidas convocaram uma reunião a escala mundial e dessa reunião fora escolhida uma mulher, o povo por sua vez e como revoltado a designou por "A Grande Prostituta da Babilônia", porem as Nações Unidas permaneceram fieis aos seus princípios por unanimidade e ordem por um pouco de tempo parecia que estava a ser estabelecida, pois o que parece ser em sim algo formidável, tem sempre as suas conseqüências e por isso mesmo o mundo que era chamado Contemporaneidade desabou, sem saber que estava prestes a entrar num novo mundo, o Mundo Global.
Tem es porem, que um mundo novo já mais pode surgir sem uma revolução, sem novos ideais e ideias que vem de novos pensadores. Num mundo caótico, a humanidade sempre encontrou um meio de sobreviver e ultrapassar todas as suas dificuldades, estávamos a revirar uma pagina na historia sem que cada um de nós estivesse consciente disso. É aqui começa a historia e termina outra, começa como sempre começou, no meio do caos os sobreviventes sempre iram encontrar uma forma de seguir em frente.
Capitulo numero 7 do livro Miosótis - Miguel Eihar Westerberg

Comentários